A. C. R. Saavedra Guedes

Quando Américo Marques da Costa, o Rato da Costa, foi expulso da Banda Clube Pardilhoense, em finais de 1928, por indisciplina e impertinência, devido ao seu apurado gosto pelo vinho, que lhe alterava o feitio, criou-se a possibilidade para alguns miúdos do lugar do Salgueiro se poderem dedicar a aprendizagem das primeiras notas musicais.

Combinado o início das aulas em plenas festividades em honra da Nossa Senhora dos Remédios, em 8 de Dezembro de 1929, entre Manuel da Silva Tavares e Salvador Pardaleiro, então com cerca de 13 anos de idade, mas o Joaquim Maria da Silva, da mesma idade, mas que já não andava a aprender o solfejo, para a segunda-feira seguinte, na casa do Rato da Costa, no referido lugar do Salgueiro, numa casa de que hoje só resta o espaço, junto à casa do Sr. António O. Santos, perto da Fonte.

É desta forma que tudo começa, dado que uns após outros, muitos são os rapazes que se vão juntar a estes, ao mesmo tempo que outro músico conceituado, o Manuel Matos que também ensinava rapazes, se veio a juntar ao Marques da Costa já numa casa no Lugar da Fonte, que hoje pertence ao Sr. Firmino Silva, Rua da Samaritana, e que fica em frente da casa de veraneio da família do Dr. Bismark dando um grande impulso ao Grupo  Musical Infantil, primeiro nome para uma ideia com futuro.

Nesta fase são já músicos de palmo-e-meio, para além dos já referenciados, mais o José Peneiras (que saía e regressava), Joaquim Fonseca, Neca Borras, Joaquim Maria da Silva e Manuel Joaquim da Silva (os incas), David Tavares, José Lopes, João Zabelo, José Lavoura (que tocava bombo quando era preciso) etc.

Em razão do grande impacto público que a iniciativa ia granjeando, com a adesão de muitas e dedicadas pessoas, como o Sr. Firmino Tavares, José Lavoura, a Sr.ª Rosa Pereira (Miôua) etc. Tornou-se indispensável encontrar um local mais adequado às exigências, que acabou por ser casa do Russo, hoje em ruínas, localizada na estrada que vai para a Ribeira da Aldeia, após a carpintaria do Sr. Jaime Rodrigues, em frente do Sr. Luciano Peneiras.

É por esta altura que começam a aparecer a aparecer rapazes do Bunheiro: António Augusto, Augusto Silva e o seu irmão Guilherme, José Dias, Manuel Estarrejeiro, etc. que possibilita que o Grupo Musical Infantil, embrião da futura Banda Nova, faça a sua aparição pública em dois grandes acontecimentos: arraial de S. João, na fonte, e uma procissão na Murtosa, com o apoio do Sr. Augusto Portugal, que era clarinete na Banda da Murtosa (que tinha acabado, e onde foram comprados o Bombo, um par de Pratos, a Caixa e o Contrabaixo) e o Sr. Resende um experimentado músico murtoseiro, ao fim de meio ano de trabalho e aturado estudo.

Porém no início de 1929, o Rato da Costa e os seus 3 alunos, haviam já entrado em cena, numa actuação em que o Joaquim Maria da Silva "toca".

Cornetim e o Manuel Tavares e o Salvador Pardaleiro dão apoio vocal, na Ribeira da Aldeia num barco moliceiro em construção, com a seguinte canção."Minha Mãe casa-me cedo; nem que seja cúm soldado; que tenho a fralda rota; de coçar neste diabo. Mete, mete com cuidado, se meteres devagarinho, vou-te librar de soldado.

E no dia 1º de Maio desse ano, no bota-abaixo do mesmo moliceiro, actuou um agrupamento de 8 elementos: Manuel de Matos, Marques da Costa, João Rilho, Joaquim M. Silva, Manuel Tavares, Salvador Pardaleiro, Joaquim Fonseca e José Lopes, onde tocaram a marcha do trabalhador, após um encontro na taberna do Fateixas.

Desde que se juntaram as vontades do Manuel Matos, Marques da Costa, enquanto músicos, o José Ferreira da Costa e o Joaquim Lopes, que tinham a incumbência de gerir as poucas ajudas financeiras que surgiam, sobretudo dos familiares dos miúdos, torna-se necessário encontrar uma casa que oferecesse melhores condições gerais, pelo que a meta seguinte foi transferir a sede do grupo, então chamado de Grupo União Pardilhoense em Capricho, por serem caprichosos todos os que lutavam com denodo para criarem, a partir do zero, uma Banda que acreditasse prestigio ao nome de Pardilhó, já conseguido pela acção da Banda Velha para outro local, o que acontece com a passagem para o primeiro andar da mercearia do Sr. Joaquim Matos (Joaquim do Álvaro, onde actualmente funciona a padaria do Sr. Albino Rodrigues, no Lugar do Agro. É por esta ocasião que tudo se transforma, com a entrada em acção de homens como Dr. António Emílio de Abreu Freire, Sr. António J. de Resende, Profs. António Pitarma e José Teixeira dos Reis, José da Silva Couto, António Marques Matos, José Ferreira da Costa, Henrique Lavoura, Alexandre Valente, António Esteves Pardaleiro, Ana Cardita, etc., bem como a contratação do Regente Adriano Guedes, uma vez que aos primeiros coube um papel determinante de financiamento da "Banda Nova", como começa a ser conhecida.

Porém, vencidas as primeiras e todas as dificuldades que foram surgindo, decidiram os valentes fundadores apetrechar o grupo de estatutos, órgãos sociais e até um novo nome, que julgavam mais adequado ao presente e encorajador para futuro que queriam promissor.

É nestas circunstâncias que se realiza a Assembleia Geral Constitutiva, em 19 de Outubro de 1930, com António Joaquim de Rezende como Presidente, secretariado pelo Prof. José Teixeira dos Reis e pelo Dr. António Emílio Bastos de Abreu Freire, onde ficou decido a substituição do nome provisório, Grupo União Pardilhoense em Capricho pelo de Associação Musical Pardilhoense Saavedra Guedes, em homenagem a um homem que foi professor de muitos fundadores desta Associação e um caprichoso e combativo Pardilhoense por adopção.

Aceite a nova designação para a novel Associação e aprovados os estatutos, seguiu-se a eleição dos corpos sociais provisórios, que ficaram preenchidos pelo seguinte modo:

Direcção: Presidente, José Teixeira dos Reis; Vice Presidente, José da Silva Couto; Primeiro-Secretário, António Emílio Bastos de Abreu Freire; Segundo-Secretário, António Marques Matos; Tesoureiro, José Ferreira da Costa; Vogais, Henrique Lavoura e Américo Marques da Costa. Para Conselho Fiscal foram eleitos: Presidente, António Joaquim de Rezende, Secretário, Francisco Nunes de Matos; Relator, José Matos. Mais foi deliberado nomear uma comissão, composta por: Américo M. da Costa, Alexandre Valente da Silva e António Esteves Pardaleiro, para avaliar o instrumental existente e estudar as condições da sua amortização que seria devida aos associados António Joaquim de Rezende e António Emílio de Abreu Freire.

Passada uma semana, no dia 25 de Outubro de 1930, voltou a associação a reunir em assembleia geral, para, apreciar, discutir e aprovar o Regulamento Interno da Filarmónica, apresentado pelo regente, Prof. António Ferreira Pitarma; a relação dos instrumentos que a comissão nomeada considerava indispensáveis para um bom funcionamento e respectivos preços; escolha de amostras de pano para fardamento; apreciação da situação financeira da associação; apresentar e aprovar lista de sócios fundadores da associação.

Em 1930, 15 de Dezembro, procedeu-se à tomada de posse dos órgãos sociais provisórios, em assembleia presidida por António Joaquim de Rezende, secretariado por António Henrique Matos, tendo-se procedido à eleição do Prof. António Ferreira Pitarma para Presidente da Assembleia Geral; para Secretários, Henrique Matos e António Augusto Pereira. Efectuada a tomada de posse o Sr. António Joaquim de Rezende fez um apelo emotivo a todos os sócios para continuarem a dedicar o melhor do seu esforço em beneficio da associação numa hora decisiva.

Por estes dias, a Banda Nova, como o Povo a baptizou, foi fazer um espectáculo a Arouca, terra do Prof. José Teixeira dos Reis, Presidente provisório, e da esposa do Prof. António Ferreira Pitarma, Regente em exercício, com uma formação que tinha já um certo nível musical. A projecção da Associação Musical Pardilhoense Saavedra Guedes, bem como da sua Banda, vai processar-se contínua e seguramente, quer porque vai conseguir melhores instalações, como porque conseguirá contratar bons regentes, sobretudo militares, sem esquecer a contínua adesão da juventude de Pardilhó.

Em Janeiro de 1932 a sede é mudada para o Curval, para a casa onde hoje habita o Sr. Jaime Lopes. Mas é o ano de 1934 que marcará o destino da associação, uma vez que é em janeiro desse ano que estreará a sua sede de muitos e bons anos, em instalações feitas a preceito, para esse fim, na casa da Barôa, na Avenida Nova, hoje justamente chamada de Avenida António Joaquim de Rezende.

No dia da inauguração a Banda Nova deu um concerto para uma casa cheia de gente, onde não havia lugar para todas as pessoas que queriam assistir: um estrondoso sucesso. Daqui em diante,  falar da Associação Musical Pardilhoense Saavedra Guedes, nome porque passa a ser designada desde então é falar da luta constante de muitas gerações de grandes Pardilhoenses, de que a seu tempo se dará devida conta e relevo.

Presentemente, a Saavedra Guedes como é conhecida um pouco por todo o lado, continua a prestigiar esta terra, as gentes Pardilhoenses e os seus fundadores. As tarefas e mesmo as linhas de orientação, impostas pelas exigências do tempo actual, são ligeiramente diferentes daquelas que estiveram na sua origem, mas igualmente meritórias e do mesmo modo granjeado do respeito e carinho das populações e entidades Locais e Nacionais. O valor do Trabalho que esta associação continua a promover não se mede em função da área privilegiada, mas em razão dos seus resultados no seio da comunidade. E neste capitulo só temos razões para estarmos TODOS satisfeitos."

 

(Texto de José Luís Moreira Santos in "Boletim Saavedra Guedes" de Dezembro /94 )

Em 1970 começou-se a angariar fundos para a construção de uma nova sede que viesse a ser propriedade da Associação. Os irmãos Farinhas foram os seus maiores contribuintes. A mudança da sede, a que se juntou a alteração de estatutos (em 1980), marca o fim da banda e início do desporto. Uma alteração das vocações do "Saavedra".

Depois do 25 de Abril saíram, por causa da política, alguns jovens colaboradores do Clube Pardilhoense, e destes surgiram novos colaboradores do "Saavedra". Começa a haver comissões para as diversas actividades e em meados dos anos 80 aparece a primeira "Semana do Emigrante", altura esta em que grandes artistas vêm a Pardilhó actuar no palco do "Saavedra", como sejam: Carlos do Carmo, Paco Bandeira, Rodrigo, Duo Ouro Negro, Carlos Paião, etc..

Funcionou nesta colectividade a Rádio Moliceiro, rádio pirata que veio dar origem à actual emissora concelhia Rádio Voz da Ria.

Em 1994 a Associação Saavedra Guedes passa a ser Instituição de Utilidade Pública.

In http://saavedraguedes.weebly.com/